“Olha, queres ser meu amigo?”


Faltavam-me as tranças desalinhadas, faltavam-me as sapatilhas desatadas, faltava-me a cara meio mascavada e as mazelas nos joelhos, nos cotovelos e no queixo, herdadas das aventuras de rua. E faltava-me um berlinde, e faltava-me um cromo raro, um rebuçado ou a melhor das fisgas, encerrados com força na mão direita, feitos tributo ao selar da promessa. E faltando-me isso tudo, ainda assim fiz aos 34 anos exactamente o que uma criança aos 6 anos faria: toquei-lhe no ombro ao de leve, sem anúncio ou razão possível, e disse-lhe meio envergonhada “Olha, gosto de ti. Queres ser meu amigo?”. Expliquei-lhe que era a pessoa certa porque o tinha intuído nas mãos, ao observar o modo dos gestos dele. Ele quis. Ele quis, mesmo sem sequer me conhecer aparte uns contactos mudos feitos de necessidades de circunstância. Ele quis e eu desejei tanto, tanto, tanto, ter fisgas ou ter berlindes nos bolsos, ter riquezas ou ter presentes nas mãos, ter alguma coisa para lhe oferecer.

Porquê? Porque precisava de um amigo. Desesperadamente de alguém que me pudesse ouvir. E quando ele me disse: “Senta-te aqui que eu oiço-te”, eu comecei a contar-lhe tudo: o que planeava e o que não planeava, o que importava e o que não importava, o que sabia dizer e o que tive que me obrigar a aprender a formular, parágrafos e parágrafos de coisas que nunca antes tinha podido entender como se podem dizer a alguém. E ao ouvir-me ele salvou-me. Explicou-me como é que através do ouvido dele havia um canal possível e fazível para a transdução de todas as frases difíceis que há tanto tempo queria dizer a mim mesma. E aos poucos ensinou-me também que o ouvido dele era uma desculpa porque ainda sabia como, olhos nos olhos, falar directamente comigo própria.

Tanto tempo, tantas coisas, tantos quotidianos a transbordar de palavras. E tantos caminhos finalmente abertos, e tantas saídas conquistadas a labirintos, e um mar de chocolates. Um mar de chocolates porque aqueles que lhe dava eram poucos, sempre demasiado poucos, porque ao longo do nosso caminho me acompanhou sem trégua o síndrome da falta de berlindes na mão.

Ele foi a pessoa certa no momento certo. Foi. Foi a pessoa que me arrancou àquilo que me aprisionava e me colocou de novo no centro da vida – no terraço onde o sol atinge a pele, no jardim onde o chilreio alcança os ouvidos, no palco abençoado em que a felicidade se encarna. É que foi com ele, ao lado dele, tantas vezes até à custa dele, que conquistei a minha liberdade. Foi ele que me repetiu até que ouvisse: “És uma boa pessoa e mereces ser feliz”.

Hoje que nos afastámos por culpa minha, morro ainda de saudades daquele ouvido sem fundo, daquele coração generoso, daquele “eu estou aqui e não vou a lado nenhum”. Morro mesmo, embora morrendo pacificamente dado que sei, de facto, que é melhor assim para ambos. Cumprimos um ciclo meu juntos; horas, dias, semanas, meses, anos que para mim tiveram todo o valor. Agora, contudo, outros desafios se abrem.

E ao contrário do que eu temi; e ao contrário do que eu achei, quando pela primeira vez me reencontrei sozinha, não voltei e não vou voltar jamais atrás. Agora sempre que alguém me toca, agora sempre que alguém me alcança, agora sempre que alguém me move, fenómeno tão raro que tem que ser abraçado como um pequeno milagre, já nem me detenho nas mãos vazias que parecem sempre caracterizar aquilo que posso dar ao outro em troca. Agora sempre que isso acontece, sempre que intuo as mesmas coisas que ele me fez intuir, esperançosamente ordeno as tranças, esperançosamente ato os atacadores à pressa, desastradamente esfrego a cara com as costas das mãos sujas da brincadeira e lá me lanço como uma tonta para ansiosamente tocar ao de leve no pobre ombro insuspeito, que acha que lida com uma mulher e a quem calha uma criança: “Olha, queres ser meu amigo? Preciso tanto de falar com alguém.”.

Faço bem. Faço bem porque nunca é tarde para ser criança; faço bem porque a vida foge-nos se não corrermos atrás do que é importante. Faço bem porque há outros loucos como ele, surpreendentes, capazes de me abrir os braços.

Ele? Ele é dele. Mas fica aqui, para sempre, guardado no meu coração.

Professora Auxiliar no ISCSP-UL. Licenciada em Sociologia do Trabalho (especialização em Política de Recursos Humanos) pelo ISCSP-UL, licenciada em Biologia (especialização em Biologia Evolutiva e do Desenvolvimento com Minor em Geologia) pela FCUL, Mestre em Sociologia e Doutora em Sociologia pelo ISCSP-UL, pós-graduada em Medical Marketing Management e Product Management pelo ISCTE-IUL. A frequentar os Mestrados em Microbiologia Aplicada e Ciências do Mar na FCUL. Investigadora e autora.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.